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Triste Brasil de Brecht

(Ou nossa falta de empatia e solidariedade)

Primeiro foram cem mortes

Mas eu não me importei com elas

Era só uma gripezinha

Em seguida chegamos a cem óbitos

Mas para a economia continuar a girar

Podem morrer algumas pessoas

Depois atingimos mil mortes

Mas eu não sou coveiro

E temos cloroquina

E enfim 100 mil vidas extintas

Ao mesmo tempo em que desprezamos

As vacinas que nos eram oferecidas

Agora estou sem ar

E a dor à minha volta é tanta

Pelas 600 mil almas perecidas

Que ninguém se importa comigo.

Dia 8 de outubro de 2021. Perdemos 600 mil entes queridos, e pelo que tudo indica, esse número poderia ser bem menor. Ah, se tivéssemos prestado atenção às palavras de Brecht…

É PRECISO AGIR

Bertold Brecht (1898-1956)

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego

Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo

 
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Publicado por em 13/10/2021 em Uncategorized

 

Desencanto

Para a amiga Bia Fonseca

Estamos todos em um momento de pleno desencanto. Já havia pensado sobre isso algumas vezes, começado a esboçar escritos aqui e ali sobre o comportamento que observo em todos os lugares. E o desabafo desencantado da amiga Bia me fez pensar sobre isso. Sobre o momento do desencanto e sobre como isso representa nosso modo de encarar a vida. Ela, que se vê em um momento de descontentamento profundo com o mundo que nos cerca, fechou um pouco os olhos para a magia. Eu, por outro lado, tento encontrar meu alento nas aventuras da ficção, antigas e novas. Nas palavras que nos trazem fantasia.

Vivemos num momento de polarização, e minha bússola aponta em uma direção que não precisa ser dita, não nesse momento. Mas acho importante dizer que, quando arrisco afirmar que todos estão em um momento de desencanto, falo pela esquerda e pela direita. Se o mundo não estivesse mergulhado em amargura e descontentamento, uma extrema não gritaria impropérios para a outra. Uma extrema não usaria a outra como o inimigo comum, que come criancinhas, como aquele a ser combatido para unificar um exército ou uma identidade. Se o mundo não estivesse abalado, esses extremos sequer teriam voz.

Mas não é o momento de falar em esquerda ou direita, é o momento de falar da humanidade.

Uma parte de mim tenta não pensar sobre o assunto, e não consegue.

Outra parte quer acreditar que a humanidade só tem melhorado (e, sim, evitei de propósito a palavra “evoluído”, por motivos filosóficos e espirituais). Quer acreditar que já fomos violentos, cruéis, abomináveis, largados à sujeira, insalubres, e que hoje estamos tentando nos distanciar desse passado. Que outrora guerreamos por territórios, escravizamos um continente inteiro, subjugamos mulheres e negamos o acesso a coisas básicas para grande parte da população. Pense em todas as descobertas científicas que presenciamos todos os dias, desde aquelas que já nem percebemos, como a luz elétrica, até o desenvolvimento de vacinas em tempo recorde. É claro, temos aqueles que não acreditam na ciência, mas eles chegarão lá.

Essa parte debate, tomando um café com outra parte, que por sua vez teme que esses descrentes nunca se abrirão para o conhecimento. E então a parte que acredita pondera: veja o que estamos discutindo sobre direitos civis, gênero, cor, cidadania, empatia. E meu debate interno segue em frente.

Outra parte quer acreditar que estamos no início da jornada, no mundo comum. Naquele momento em que o herói e a heroína se veem em um mundo sem esperança, presos em um eterno cotidiano de melancolia, em um mundo que não entendem mas no qual precisam sobreviver. Naquelas primeiras páginas que Tolkien, LeGuin, Gaiman, Austen, Dickens, Bradbury, Brontë, Asimov, Riodan, Rowling e tantos outros nos descrevem para nos apresentar um mundo que, em breve, seria chacoalhado, ferido, renascido e, definitivamente, alterado.

Para ser sincera, quero crer que já fomos chamados à aventura, e que já atravessamos o primeiro limiar. E estamos naquele ponto em que o mal é tão grande, tão grande, que só nos resta pensar nas palavras que Sam diz a Frodo (Tolkien, O senhor dos Anéis):

“Frodo: – Não consigo fazer isso, Sam.

Sam: – Eu sei. Está tudo errado. Nós nem deveríamos estar aqui. Mas estamos. É como nas grandes histórias, Sr. Frodo, as realmente importantes. Aquelas cheias de escuridão e perigo. E às vezes você nem queria saber o final, por que como o fim poderia ser feliz? Como o mundo poderia voltar a ser o que sempre foi quando tanta coisa ruim aconteceu? Mas, no final, essa sombra vai passar. Um novo dia virá. E quando o sol nascer, ele brilhará ainda mais. Essas eram as histórias que ficavam com você. Que significavam algo. Mesmo quando eu era pequeno demais para entender por quê. Mas eu acho, Sr. Frodo, que eu entendo. Agora eu sei. As pessoas daquelas histórias tiveram muitas chances de voltar atrás, mas não fizeram. Elas continuaram, porque estavam se agarrando em alguma coisa.

Frodo: – A que estamos nos agarrando, Sam?

Sam: – Que há algo de bom nesse mundo, Sr. Frodo, pelo que vale a pena lutar.”

Mas, se cruzamos o limiar, onde estão nossos mentores? A quem devemos ouvir? Quem são nossos aliados? Nossos inimigos? Quais são os testes que nos levarão à caverna oculta e ao início da provação?

A parte de mim que olha a vida com os olhos da aventura, até um pouco demais, quer acreditar que existe, sim, algo de bom nesse mundo, pelo qual vale a pena lutar. Que os aliados são aqueles que não se deixam calar diante da injustiça e da iniquidade. Que levantam bandeiras, não a favor de um pequeno grupo ou colocando a culpa de todo o mal em quem os contraria, criando discórdia e semeando ódio. E sim todos os que levantam suas vozes em prol da humanidade, da justiça, da união.

Qual parte de mim estará correta, só o futuro dirá. Ainda não sei se minha mente se inclina para a alienação, para o pragmatismo ou para a aventura.

Cá entre nós, meu coração sabe exatamente em que ponto da jornada estamos.

 
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Publicado por em 24/05/2021 em Ideias

 

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Olá, a quem estiver lendo!

Depois de muitas voltas em torno do sol, resolvi entrar de novo nesse blog cheio de teias de aranha. Motivada por uma amiga querida, com que compartilho o amor pelos livros e com quem amo conversar (presencial ou digitalmente), achei que era hora de incomodar os aracnídeos e ocupar um pouco esse espaço digital. Afinal, já era hora de colocar as palavras em uso. Obrigada, de antemão, a quem me dedicar um pouquinho do seu tempo.

 
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Publicado por em 24/05/2021 em Uncategorized

 

Documentos Literários | Fotos, política e cartas de amor: o Inventário Tobias Monteiro

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A Série Documentos Literários, colaboração da Divisão de Manuscritos, apresenta o Inventário Analítico do Arquivo Tobias Monteiro, no qual são disponibilizados os registros de um dos mais importantes conjuntos documentais sob a guarda da Biblioteca Nacional.

Tobias Monteiro (Natal, 1866 – Petrópolis, 1952) foi um dos maiores historiadores brasileiros, além de político – foi senador pelo Rio Grande do Norte — e jornalista. Segundo José Murilo de Carvalho, foi seu trabalho de pesquisa, recolhendo depoimentos sobre a situação financeira do país, que fez Monteiro se interessar por História do Brasil. O arquivo inclui muitos documentos que serviram de base a seus livros sobre a Regência e o Segundo Reinado, além de outros produzidos pelo Barão de Penedo (que tratam de importantes questões políticas, como a Questão Christie, e religiosas, como o conflito do governo brasileiro com os bispos) e os arquivos do Duque de Caxias, do Marquês de Olinda e…

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Documentos Literários |Exames Censórios do Conservatório Dramático

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A Série Documentos Literários, contribuição da Divisão de Manuscritos, apresenta o Inventário Analítico da coleção de exames censórios do Conservatório Dramático Brasileiro.

conservatorio

O Conservatório existiu entre 1843 e 1864, como uma associação cujo objetivo era zelar pela qualidade (e pela moral e bons costumes) do que se apresentava nos palcos brasileiros. Entre seus pareceristas estava Machado de Assis, cujas apreciações foram reunidas num livro, também integrante da coleção. Era um crítico rigoroso, especialmente quando se tratava de uma produção escrita originalmente em português, pois, segundo afirmou num parecer,

Esta qualidade impõe à crítica mais severidade do que a costumada. Sou dos que pensam que a análise deve ser mais minuciosa, e porventura mais rigorosa com as composições nacionais. Só por este modo pode a reflexão instruir a inspiração.

Além dos pareceres, a coleção inclui correspondência, atas, relatórios e outros documentos, constituindo-se num precioso conjunto para quem se dispõe a estudar…

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Documentos Literários | Um Depoimento de Carlos Drummond de Andrade

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A Série Documentos Literários, colaboração da Divisão de Manuscritos, homenageia Carlos Drummond de Andrade no aniversário de sua morte.

Contista, cronista e sobretudo poeta, Drummond (Itabira, 31 de outubro de 1902 – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987) iniciou sua carreira literária divulgando o Modernismo, que influenciou, principalmente, seus primeiros trabalhos. Alguns estudiosos, contudo, não o consideram modernista, embora se aproxime dessa corrente tanto em estilo quanto nos temas abordados, frequentemente ligados ao cotidiano. Muitos de seus poemas traduzem inquietações frente ao mundo e ao desenrolar dos fatos: a guerra, a pobreza, a morte, a solidão.

Carlos Drummond de Andrade foi autor de dezenas de livros e coletâneas de prosa e poesia, tais como “A Rosa do Povo” (1945), “Contos de Aprendiz” (1951), “Boitempo” (1968) e “Amar se Aprende Amando” (1985), bem como de alguns livros infantis. Também exerceu a carreira de funcionário público durante a maior parte…

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Documentos Literários | Aniversário de Gonçalves Dias

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A Série Documentos Literários, colaboração da Divisão de Manuscritos, homenageia o escritor Gonçalves Dias em seu aniversário.

Filho de um comerciante português e uma descendente de negros e indígenas, Antônio Gonçalves Dias (Caxias, MA, 10 de agosto de 1823 – Guimarães, MA, 3 de novembro de 1864) se formou em Direito na Universidade de Coimbra e participou de importantes grupos de estudos literários e historiográficos portugueses. Regressou ao Brasil em 1845, mas, antes disso, escreveu “Canção do Exílio”, o poema pelo qual se tornaria mais conhecido e que é considerado uma das primeiras manifestações do Romantismo brasileiro.

De volta à pátria, começou a lecionar no Colégio Pedro II e a atuar como jornalista — em 1849 foi um dos fundadores da revista “Guanabara”. Continuou a escrever poemas, alguns dos quais se tornaram famosos, como os poemas indigenistas “I-Juca Pirama”, publicado na obra “Últimos Cantos”, e “Os Timbiras”, publicado em 1857…

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Documentos Literários | 3 de agosto – fim da tortura e da censura no Brasil

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No dia 3 de agosto de 1988, a Assembleia Nacional Constituinte repudiou os excessos dos governos militares, inserindo na nova Constituição – a Constituição Cidadã — artigos que proibiam a tortura e garantiam a liberdade de expressão.

Para lembrar essa data, a Série Documentos Literários, contribuição da Divisão de Manuscritos, apresenta uma carta enviada pela Ed. Civilização Brasileira ao militar e intelectual Nelson Werneck Sodré. Seu autor, possivelmente um dos editores, que assina apenas com uma rubrica, lamenta que o Instituto Nacional do Livro – INL tenha vetado a dedicatória feita a Nelson Werneck Sodré por Martha Antiero, autora do livro “A Rede”. Em sua opinião, isso teria se dado por pressão do Serviço Nacional de Informações, o SNI, ou de outro órgão de controle de informações e publicações criado após o golpe de 1964, uma vez que Nelson Werneck Sodré era considerado “persona non grata” pelo regime.

A…

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Coleção Percival Farquhar

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A Coleção Percival Farquhar, custodiada na Divisões de Manuscrito da Fundação Biblioteca Nacional, é composta por 1610 documentos manuscritos, fotografias, plantas, mapas, que cobrem suas atividades empresariais e vida pessoal na primeira metade do século XX.

Farquhar (1864-1953) nasceu na Pensilvânia, nos Estados Unidos, e formou-se engenheiro na Universidade de Yale. Lançou-se no mercado latino-americano, investindo em segmentos empresariais como energia elétrica, bondes e construção de portos e ferrovias. No Brasil, foi pioneiro na construção de linhas férreas e de siderurgias, otimizando o processo de extração de minério de ferro, e ligando a produção siderúrgica ao litoral com vistas à exportação. Entre seus empreendimentos, destacamos a Brazil Railway Company, Cia. Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, Itabira Iron Ore Co., Companhia Brasileira de Mineração e Siderurgia e a Aços Especiais Itabira. Por sua atuação ligada aos investidores e ao mercado internacional, suscitou resistências nacionalistas que marcaram sua trajetória no país.

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Percival e Cathya Farquhar…

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Documentos Literários | O Livro Mais Lido no Nordeste

Documentos Literários | O Livro Mais Lido no Nordeste

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Em homenagem ao nascimento de John Dee (Londres, 13 de julho de 1527 – Richmond, 1608?), matemático, geógrafo, alquimista e astrólogo que serviu de conselheiro à Rainha Elizabeth I da Inglaterra, a Série Documentos Literários apresenta o Lunário Perpétuo, nome encurtado de uma obra muito popular no Brasil nos séculos XVIII e XIX.

Escrito originalmente em espanhol pelo astrólogo e matemático Jeronimo Cortez, natural de Valencia, o Lunário teve sua primeira edição em 1582, época em que a Astrologia era um campo do saber reconhecido pelos eruditos e amplamente difundido entre a população. Foram muitos os almanaques astrológicos que circularam na Península Ibérica nesse período, contendo informações sobre signos astrológicos e fenômenos astronômicos, mas, principalmente, calendários de festas e dias santos, meteorológicos, de tábuas da maré, lunares – enfim, informações utilíssimas para o dia-a-dia e para atividades como a navegação e a agricultura.

o livro mais lido do ne

A primeira edição portuguesa surgiu em 1703…

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