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04 jun

Ser escritor de primeira viagem é viver em uma certa angústia. Em uma enorme angústia, para ser mais exato. Dia 31 de maio foi o marco de 45 dias do texto enviado para a editora, e nada… Os originais de Sangue Azul permanecem sem destino certo, e ainda faltam 15 dias para o prazo final de resposta expirar. Sim, somente no dia 15 de junho chega-se ao fatídico fim da espera. Depois de dois longos meses, será que responderão sim, ou não?

No entanto, não apenas de desabafos sobre Sangue Azul vive este blog. Acho que ouvi alguém dizer (ou, provavelmente, li em algum lugar) que o ato de escrever começa ao imaginar. E que por isso aqueles que nasceram escritores já começam a escrever antes mesmo de saberem colocar as letras em ordem e as palavras no papel. Talvez estes tenham as brincadeiras mais elaboradas e surreais, ou apenas acreditem com mais veemência nas travessuras que estão tramando. Uma caixa de papelão transforma-se em um castelo, bonecas vivem toda uma odisséia em algumas horas, as roupas dos pais emprestam alguns anos de maturidade às crianças que as vestem. Tudo é possível para as crianças, e talvez os escritores mantenham essa capacidade de se libertar das barreiras da chamada realidade. São capazes de se agarrar à sua fé. Não uma fé baseada nesta ou naquela religião (e que cada um tenha a plena liberdade de seguir a sua), mas no ato de acreditar. Simplesmente acreditar.

Ler é transpor barreiras, mundos, dimensões. Deixar-se envolver pela leitura é ter a ingenuidade e a leveza de espírito de se libertar de preconceitos e seguir o caminho traçado pelo escritor. Este, um leitor que se atreveu a materializar seus pensamentos, tudo aquilo que lhe veio a mente enquanto lia e percorria mundos longínquos, ou nos momentos em que apenas divagava e construia castelos no ar. Um leitor que teve a coragem de dividir suas páginas com outros, sujeito a elogios e críticas.

Minha família sempre gostou muito de ler, sem preconceitos com relação a origens mais “nobres” dos textos. Nos tempos em que ainda não havia aprendido a ler, minha avó contava histórias na hora de dormir, ou eu me perdia escutando LP´s e fitas K-7 com as narrativas mais diversas, especialmente os da Coleção Disquinho (inesquecível a triste história de “Picolé, o bonequinho de neve”). Estes discos eram alguns anos mais velhos do que eu, uma feliz herança das minhas irmãs. Meu favorito era um LP que trazia de um lado “Ali Baba e os quarenta ladrões”, e do outro “Os cisnes selvagens”. Ainda guardo vários, o problema é em que aparelho ouvi-los.

Foi misturando audio e impresso que comecei a ler, deixando-me levar pelas histórias de outra herança, os disquinhos da Coleção Taba de Histórias Infantis. Cada livro acompanhado de seu mini LP. Não me lembro se tínhamos vários, mas eu sempre ouvia os mesmos dois: “Sapo vira Rei vira Sapo” (música tema: A Banda, de Chico Buarque), e “O Segredo do Curumim” (música tema: Passaredo, também do Chico). Foi culpa da Taba eu gostar de Chico Buarque. E no final do livro, depois da história, ainda vinham várias sugestões de brincadeiras com artesanato, colagens com macarrão e muita tinta, para deixar as mães de cabelo em pé.

Outra coleção favorita e que, mesmo em um estado de conservação duvidoso, me acompanha desde sempre: a “Enciclopédia da Fantasia”, com seus seis volumes de contos de fadas abrangendo fábulas, contos europeus, africanos, asiáticos, um pouco de tudo. Foi nela que aprendi as versões originais de Branca de Neve, Cinderela e Bela Adormecida, ao mesmo tempo que me apixonava pelas adaptações de Walt Disney. Essa é sem comparações uma coleção favorita, e que todas as crianças deveriam ter em casa.  Fazendo uma busca no Google, descobri que nos mais diversos sites e sebos cada volume custa em média dez reais. Leitura de qualidade e a preço irrisório, ainda mais se pensarmos no absurdo que estão os preços dos e-books no Brasil. Como pode um livro digital custar entre dez e trinta reais? E ainda querem que troquemos o livro (um impresso que é sagrado para mim e outros aficcionados) pelos leitores digitais…

Por falar em aficcionados, acho que sou bibliomaníaca desde sempre. Eu já surtava nas feiras de livro que aconteciam em meu colégio, separando vários títulos gananciosamente e implorando a minha mãe, que era professora na escola, para comprá-los no mesmo dia. Tenho até hoje meu primeiro livro autografado, que adorei, mas comprei apenas porque o autor fora dar uma palestra para os alunos e eu queria muito um livro com autografo e dedicatória. “Charalina”, de Nelson Albissú, está comigo há mais de vinte anos.

Mais uma companhia de leitura: Monteiro Lobato. Perdoem-me se ele hoje é considerado politicamente incorreto, etc, etc. Sempre amarei as histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, com as quais aprendi  sobre os doze trabalhos de Hércules muito antes de Percy Jackson acender o gosto dos leitores pelo mundo grego. Antes que reclamem, adorei os livros de Rick Riordan (historiador, com eu…) sobre semi-deuses e a antiguidade clássica.

Além dessas, as hoje um pouco desvalorizadas leituras paradidáticas. Coleção Vagalume! “O escaravelho do diabo”, “Um cadáver ouve rádio”, “Aventura nas trilhas do tarô”, “Aventuras no império do sol”, “Na barreira do inferno”, “O mistério do cinco estrelas”, “Um gnomo na minha horta” e outras dezenas de livros também de outras coleções, como as histórias da turma denominada “Os Karas”, de Pedro Bandeira. Todas elas fizeram com que eu sempre procurasse um porão de tesouros ou um sótão assombrado na casa antiga em que morei desde que nasci até meus vinte e cinco anos.

Lembram que mencionei as feiras de livros que aconteciam em meu colégio? Foi numa delas que conheci minha paixão, insubstituível, não importando opiniões alheias. Harry Potter. Comprei o primeiro volume e não parei mais. Sempre ansiosa pelo próximo, que com o andar das coisas, obviamente começaram a sair sempre em momentos importantes da vida, mas eu sempre abandonava as obrigações para lê-los. “O Cálice de Fogo” saiu no ano do vestibular. Ganhei “A Ordem da Fênix” quando passei nos testes para tirar carteira de motorista. “O Enigma do Príncipe” interrompeu um pouco meu último período da faculdade e as preparações para o concurso do mestrado, mas tudo correu muito bem. “As Relíquias da Morte” vieram para ser um recreio nos limiares da conclusão da dissertação. Como não transformar esses livros nos clássicos de minha prateleira? Enfim, com uma vida de leituras antes e depois de Harry Potter, deixo para outro dia os comentários sobre os livros mais “sérios” (outros nem tanto) pelos quais me apaixonei depois. Malfeito feito.

 
 

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