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27 jul

Mais de três meses se passaram e nenhuma resposta da editora… Aliás, pedi novamente ajuda no Facebook, e agora parece que o prazo oficial de resposta é de três meses, ainda que o site mantenha que o material será analisado em um prazo máximo de sessenta dias, com aviso caso seja necessária alguma extensão deste. Com o prazo de exclusividade mais que estourado, resolvi partir para outra. E confesso, algo sempre me disse que eu deveria ter enviado para esta primeiro. A editora de Meg Cabot… Mas, enfim, o que seria da vida sem uma série de pequenos (e grandes) equívocos? Escolhi a primeira por ter um prazo de resposta mais rápido (!), ao passo que a editora para a qual enviei meus originais hoje pode demorar até um ano para responder. E só há contato se a obra for aprovada para publicação. Pelo menos essa é bem mais honesta, e vou ficar mais à vontade para começar a perguntar se há resposta daqui a um mês. Ah, sim! Dia 28 de agosto eu entro em contato, porque com certeza vão receber as 340 páginas impressas amanhã até as dez da manhã.

Porém, parando com essa mania horrível de falar de Sangue Azul apenas para desabafar sobre editoras, resolvi escrever um post que programei faz tempo. Sobre o processo de criação de Sangue Azul. E confesso que ele começa de foram muito cliché. Mas comecemos pelo início. Vocês sabem que eu sempre li muito, já escrevi um post imenso sobre isso. E sempre sonhei muito, preferencialmente em colorido. Tenho quase certeza de que nunca sonho em preto-e-branco… E no final de 2008 tive um sonho daqueles que nos fazem acordar de má vontade – independentemente se você, como eu, acorda sempre desejando ter dormido um pouco mais. Sonhei com uma cena fantástica e sentei logo em frente ao computador para transcrever as ideias em palavras. (Observação: não consigo parar de acentuar a palavra ideia…) Esse foi o primeiro suspiro de Sangue Azul. Seu próximo respiro foi a ideia que tive de uma carta escrita por uma prisioneira, que eu já sabia que seria a heroína da minha história. A partir daí, fui tentando amadurecer esses planos de escrever, muito vagarosamente. Primeiro pensei em juntar todos os elementos que gosto em um livro, e fiz uma lista deles. Por exemplo:

– Romance do casal principal: altos e baixos, separações, situações de perigo, auto-sacrifício, mas relacionamento contínuo (sem triângulo amoroso, o que detesto);

– Definir criaturas fantásticas que aparecerão – e suas características de acordo com a literatura pesquisada;

 – Muita ação e intriga – quem é o bem e quem é o mal – e quem muda de lado;

– Ritmo de filme, se possível;

        – Narrador onisciente ou narrador personagem? Ou ambos?;

– Hierarquia / Pertencimento / Clãs;

 – Estranhamento / Fascinação pela tolerância com as diferenças (casal principal);

 – Aprendizado;

 – Salvamentos / Preocupação;

 – Caráter / Admiração / Beleza;

 – Novos horizontes;

 – Ciúme;

 – Artifício ao estilo “O nome da rosa” – documentos e diários redescobertos;

 – Afastamento para salvar o outro (não da forma tradicional);

 – Interpretação de profecias.

E está longe de ser a lista completa, que foi sendo atualizada desde então. Nem todos os elementos apareceram nesse livro, claro, mas tentei utilizar o máximo deles. E como não pretendo ser uma escritora de um livro só, terei chance de usar os que ficaram de fora. Depois, passei a anotar todas as idéias mais absurdas e repentinas, sem preconceito. Todas ficaram embaralhadas em um grande arquivo, que só fazia crescer a cada dia. Mas isso tudo ficou um pouco de lado com os preparativos de casamento e mudança, arrumação da casa nova, essas coisas. Foi no início de 2010, mais de um ano depois da primeira ideia ser escrita, que resolvi tomar coragem para pôr as idéias no lugar. O primeiro back-up oficial que tenho em meus e-mails data de 27 de janeiro de 2010.

Quando falo em organizar as ideias, falo em sentido bastante literal. Sentei para ler tudo o que eu havia escrito, todos os elementos que eu havia pontuado, e todos os arquivos contendo ideias tiradas de livros. Elizabeth Gaskell e seu “North and South” ensinaram-me alguns pontos fundamentais, dentre os quais destaco dois:

    – Os homens se apaixonam primeiro;

           – Descrições detalhadas são fundamentais. Nada como a cena em que Mr. Thornton fica fascinado com um bracelete que sobe e desce pelo braço de Margareth Hale, enquanto ela lhe serve chá. Mas cuidado para não ficar enfadonho, escrever aqueles trechos que o leitor decide pular. Elemento primordial, e também um terreno movediço, muito perigoso.

Dividi os arquivos em de forma bastante específica, para que eu pudesse sempre encontrar minhas ideias. O que tirei dos livros ficou em uma pasta chamada “Referências”, que passou a abrigar diversas formas de inspiração. Ah! E a neurose máxima: um arquivo chamado “Palavras e expressões”, contendo palavras de que gosto e que gostaria de usar, como: Alacridade; Algibeira; Ameias; Aquilino; Arquejar; Clangor; Cingir num abraço; Crispar as mãos; Escalavrado; Espiar por entre os cílios; Estouvado; Estrilar; Fenecer; Franzir o cenho; Frêmito de medo; Lusco-fusco; Sortilégio; Soslaio; Taciturno; Tamborilar. E outras metáforas. Não é realmente muito bom quande se lê uma metáfora, uma analogia ou uma descrição perfeita? Veja Dickens, em “Um conto de duas cidades”:

“O dono da taberna era um homem de trinta anos com pescoço grosso e aparência de guerreiro, e devia estar com calor, pois, embora o dia estivesse muito frio, não usava paletó, apenas o carregava sobre o ombro. As mangas de sua camisa também estavam dobradas, e seus braços morenos, desnudados até os cotovelos. Tampouco usava algo sobre a cabeça além do próprio cabelo escuro, curto e ondulado. Era um homem todo escuro, com olhos bons separados por uma boa distância. Com uma aparência geral bem-humorada, mas também implacável; obviamente um homem de pulso forte e objetivos firmes; um homem que não seria desejável encontrar avançando às pressas por uma via estreita com um abismo de cada lado, pois nada poderia desviá-lo de seu caminho”

Mas estou divagando demais, novamente. Voltando. Então, nos fins de janeiro, sentei durante horas para finalmente organizar os pensamentos. Como nunca fiz curso de criação literária, me apeguei ao que aprendi durante minhas pesquisas, durante meu mestrado. Primeiro, resolvi que o livro teria vinte e sete capítulos (adoro esse número, essa parte não é nada acadêmica).  Dividi as idéias entre esses capítulos, pegando o que eu já tinha, inventando outras coisas, e finalmente defini o que aconteceria em cada capítulo. Peguei os escritos que estavam embaralhados em um grande arquivo, e os rearrumei em cada capítulo, onde cada evento deveria acontecer. Minha “espinha de peixe” estava montada, e pronta para ser preenchida. Algumas tinham bastante substância, e outras estavam vazias. Mas não ficariam assim por muito tempo. Agora, sempre que eu tinha uma ideia, ela já ia exatamente para seu cantinho.

Como boa fã de contos de fadas, eu precisava agora escolher as criaturas fantásticas de que mais gostava. Olhei primeiro atentamente um bestário medieval on-line, o http://bestiary.ca Maravilhoso. E depois me deliciei com um livro de Jorge Luis Borges, “O Livro dos Seres Imaginários”. Obrigada, Borges, por essa compilação que foi tudo para mim. Foi um passo inicial incrível, que soltou totalmente minha imaginação. No arquivo “Personagens e Criaturas” está tudo anotado, todas as criaturas de que gostei e peguei emprestadas dessas duas obras, as que vieram depois, e as que tomei coragem para inventar, como os talulos (também sonhei com esse nome, depois de ter pensado na criatura em si).

Estava tudo organizado, pronto para ser escrito. Mas houve períodos de escassez imaginária, em que não escrevi uma linha sequer. Outros férteis, em que escrevi dois capítulos em uma semana. E também os contratempos informáticos… Ah! Os contratempos informáticos… O que seria dos vendedores de remédios contra dor de cabeça e estresse sem eles!

Durante todo o tempo, houve uma fonte de inspiração fundamental. Sei que o mundo não seria o mesmo sem os livros, mas também não seria o mesmo sem a música. Não escrevi uma linha sequer sem música, nem mesmo quando meu computador pifou e fiquei sem minhas playlists organizadas para os momentos bons, os ruins, e as cenas de batalha. Passei a escrever no netbook, e a escutar o que restara no meu iPod. E eventualmente angariava músicas novas, para conceber um ambiente novo de inspiração.

Descobri que músicas com letra me distraem um pouco, mas fui totalmente salva pelo grupo Apocalyptica, com seus covers de rock (destque para “Nothing Else Matters”), e músicas originais como “Farewell”, “Romance” e “Deathzone”. Muito obrigada. A música clássica de Chopin, Beethoven e Mozart… Outra paixão que me fez companhia ao escrever: trilhas sonoras de filmes. Howard Shore, Hans Zimmer, Carter Burwell, Marco Beltrami, Philip Glass, Dario Marianelli, Nicholas Hopper, Marc Streitenfeld, Craig Armstrong, A.R. Rahman, Harry-Gregson Williams, Patrick Doyle, Clint Mansel, Henry Jackman, Paul Haslinger, John Powell, vocês são tudo de bom. E ao seu lado estão os compositores de músicas para trailers de cinema, sempre fantásticos para os momentos decisivos: E.S. Posthumus, Groove Addicts, Pfeifer Broz., Two Steps From Hell, e X-Ray Dog. Mas também ouvi minhas bandas favoritas: Muse, Bush, Keane, One Republic, Beatles, Snow Patrol, Massive Attack, Coldplay, GreenDay, Marilyn Manson, Radiohead. Destaque para duas músicas favoritas, que literalmente já ouvi centenas de vezes (podem conferir no contador do iTunes): Portland Cello Project – Denmark; e X-Ray Dog – The Vision. Escrevi muito ao som das trilhas sonoras de Harry Potter, e o fim do capítulo vinte e cinco foi escrito aos acordes melancólicos de Dumbledore’s Farewell.

Aproveitando que fugi novamente do assunto e entrei em uma onda de agradecimentos, tenho que dividir a admiração que passei a ter pelo Museu Britânico. Precisei de algumas informações para escrever o capítulo três, e resolvi que não perderia nada enviando um e-mail para o endereço que está no site. Acostumada com o tratamento que recebemos por e-mail no Brasil, salvo raríssimas exceções, pensei que o pior que poderia acontecer seria nunca receber uma resposta. Tomei coragem de colocar meu inglês em público, e no dia nove de julho de 2010 enviei a mensagem, às três da tarde. Para minha surpresa, no dia dez, pouco depois das onze da manha, estava a resposta de Maurizio Cinquegrani (Reading Room Assistant / Learning and Audiences / British Museum), com todas as informações de que eu precisava, e mais algumas. Tem como não se apaixonar por isso?

Bem, com o post mais longo da história do Lanchinho da Meia Noite, posso afirmar que escrever ficção é uma delícia. Não se enganem, adoro minha profissão, adoro pesquisar e escrever sobre minhas pesquisas, mas escrever sem “amarras” é simplesmente indescritível. As ideias e os personagens assumem vida própria; eles dizem ao escritor o que fazer, e não o contrário. Aquele primeiro sonho tomou uma proporção inteiramente nova, e foi se instalar no capítulo vinte e três. A carta da prisioneira, que eu imaginava para abrir o livro, sempre pertenceu ao capítulo cinco. Escrevi um personagem mitológico querendo fazer dele um vilão, mas ele sempre foi um mocinho, mesmo que pense o contrário a respeito de si mesmo. Acho que vocês pegaram a idéia.

Espero que tenham tido fôlego e paciência para ler esse texto até o fim. Antes de encerrar, preciso dizer que, como Sangue Azul é uma trilogia, e existem outros Sangues Azuis por aí (nenhum com o mesmo tema), preciso muito de um complemento para o nome do primeiro. As partes dois e três já tem nome e sobrenome. A parte dois já está em processo de criação, e a três já tem algumas idéias fervilhando. Por favor, por favor, que venha a inspiração!

 
 

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