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Conto

29 set

Há algum tempo, arrisquei me inscrever em uma promoção para escritores iniciantes. Devia ter pensado melhor… Só depois vi que a escolha seria primeiro por voto popular.

Dentre os cinquenta mais votados, um júri escolheu dez contos. O vencedor recebeu 9150 votos dos internautas. E o meu conto… bem, acho melhor nem dizer.

Mas nem tudo está perdido! Para vocês conhecerem um pouco mais da minha escrita, resolvi publicar o conto no blog.

Espero que gostem, e quem sabe, em um futuro breve, possam ler Sangue Azul em páginas impressas… Não custa continuar tentando, afinal, ainda não recebi nenhuma resposta.

Com vocês: Mir.

 Victória passou pelas grandes portas de ferro e sentiu um frêmito de medo. O barulho de seus sapatos no chão de mármore produzia um barulho sombrio, o eco aterrorizador típico dos lugares desertos. Mas ela sabia que não estava sozinha. O encontro havia sido marcado na mesa principal, no centro daqueles corredores concêntricos que formavam a Biblioteca Principal, e não havia chance de ter sido a primeira a chegar. Mas apenas ela viria sozinha, disso tinha certeza.

De repente, a fraca luz que conseguia vencer os vitrais da grande clarabóia que coroava o salão falhou, e a jovem virou-se para a porta, assustada. Pensou ter ouvido ruídos por detrás das enormes estantes, e percorreu com o olhar o núcleo em que se encontrava, procurando por algo que não sabia o que era. Percebeu então que uma nuvem escura havia passado pelo céu, provocando a penumbra, e procurou recuperar a respiração. Foi quando sentiu a mão em seu ombro, e aquela voz familiar dizendo seu nome.

– Leon? O que você está fazendo aqui? Eu prometi a eles que viria sozinha. Vá embora enquanto há tempo. Não sei…

A jovem foi interrompida por Leon, que lhe falava em um tom de voz baixo, quase sussurrando:

– Fique calma, Victória. E, por favor, não reaja ao que vou lhe dizer. Por favor, mantenha a calma e não reaja. Teremos tempo para isso depois que tudo estiver resolvido. Eu estou com eles, sempre trabalhei para os Nequitia, mas não da forma que você está pensando.

Victoria inspirou profundamente e respondeu, ainda que mal fosse possível ouvir sua voz:

– Não vou reagir, há mais em jogo do que minha vida, ou que nós dois. Mas tire suas mãos imundas de mim, e tenha a decência de dizer o que realmente pretende.

– Victória…

– Vamos, estou esperando. Nomeie suas condições para libertá-la. – sua voz soou como metal, fria e afiada.

Nesse momento, a jovem de cabelos castanhos sentiu todo o sangue lhe fugir do rosto, ao ver a figura que surgia na escuridão dos corredores apagados. Aquele homem grisalho, volumoso dentro de um terno caro e bem cortado, lhe lançou um olhar de pura maldade. Não conhecia seu nome, apenas como gostava de ser chamado: Hades. E o homem que queria ser o deus dos mortos lhe sorriu com o canto esquerdo da boca, sustentando a certeza de que a tinha nas mãos, de que ela faria tudo o que ordenasse.

Victória ouviu Leon lhe pedir para que fingisse não conhecê-lo. Manteve-se de frente para Hades, reunindo todas as suas forças para não sucumbir ao pânico. A posição lhe garantia também não olhar para o homem ao seu lado, em quem ela confiara. Tudo havia começado meses atrás, quando o clima parecia propício para voltar ao seu país. Ela e a irmã, Isolda, estiveram exiladas por anos, desde que a perseguição às bruxas e feiticeiros fora instaurada pela Nova República. A ditadura imposta pelos mortais queimara tanto livros quanto humanos, rezando para apenas uma nova senhora, a ignorância.

Hades era o comandante-em-chefe do exército na época, e se gabava por ter aniquilado milhares de pessoas e centenas de bibliotecas. Nos momentos de frenesi destruidor, nem parecia o aficcionado pela Antiguidade Clássica que ordenara a construção de diversos prédios seguindo a arquitetura greco-romana. A própria biblioteca em que estavam fora erguida em uma homenagem grotesca ao Coliseu de Roma. Enfim, juntamente com o novo “primeiro-ministro”, Fausto, tomaram o poder à força, e da mesma forma acabaram com os livros e com aqueles que se colocaram contra sua nova forma de governo. Apregoaram que a população não tinha capacidade de discernir entre leituras boas e ruins para suas vidas, e decretaram que a partir daquele momento essa seria uma decisão dos governantes. Incendiaram livros de história, filosofia, física quântica, literatura, religião e quanto mais acharam necessários. Atearam fogo a um número sem fim de piras, cada uma com duas, três, e às vezes dez pessoas. Pouco restara do que um dia fora o país chamado Mir.

As duas meninas, exiladas entre os que conseguiram fugir, eram filhas dos líderes da resistência. Não teriam abandonado os pais, nem tudo o que conheciam se lhes houvesse sido oferecida alternativa. Novas demais para entender o que realmente estava acontecendo, foram enviadas para fora das fronteiras, escondidas em um caminhão de girassóis que seguia para exportação. Mas a situação fugira completamente do controle para que os pais as mantivessem junto deles. Dois anos depois do golpe encabeçado por Fausto, seu braço direito e executor das atrocidades que planejavam resolveu não se contentar com o segundo lugar na cadeia de comando. Assegurando-se que possuía total controle sobre o exército e outros segmentos da sociedade, Hades se desfez da última parte de sua alma ao assassinar, durante o sono, seu irmão.

Por anos seu poder se infiltrara e se fortalecera, como um vírus, tomando e destruindo. E da mesma forma, enfraqueceu o organismo em que se instalara, até causar a morte do hospedeiro. A população estava exausta, despida de todos os bens materiais e de sua dignidade, semi-morta. Não havia mais como pagar os impostos, e ainda que a ignorância da falta de livros estivesse impregnada como um cheiro ruim, havia inúmeros cidadãos da antiga Mir, que guardavam em suas mentes o conhecimento que não lhes podia ser tomado. Somada a esse estado de conhecimento letárgico, a exaustão imposta cobrou seu preço. O exército por trás do qual Hades se escondia já não era o mesmo, os velhos praças haviam envelhecido, burocratizado-se. Os jovens soldados agora seguiam ordens sem compreendê-las, não compartilhavam do poder, não havia lealdade ou mesmo empatia para com aquele alto chanceler.

Era o momento pelo qual a resistência estivera aguardando por mais de uma década. Começou a se infiltrar e a insuflar insatisfação, a revolta, e o sentimento de que a população poderia acabar com aquela tirania. Conseguira reconquistar o coração de quase todos os civis e recrutar membros nos diversos escalões das forças armadas; a resistência estava em todos os lugares. Seus líderes já haviam passado pelas duas grandes guerras mundiais, e sobrevivido. Na primeira, Henrique e Sofia viram seu lar na Alemanha ser destruído pelos embates entre a Tríplice Aliança e a Tríplice Entente. Sofia era descendente dos ciganos e feiticeiros Sinti, ou Manoush, que ali residiam e acolheram a família de Henrique. Depois disso, este descendente de antigos celtas buscou com a esposa e alguns amigos refúgio na ilha a que seus ancestrais já havia recorrido, a Grã-Bretanha. Mas seus momentos de frágil tranquilidade não tardariam a cessar, e conheceriam os horrores da guerra que atravessaram o Canal da Mancha. Como um rio represado que guarda calmamente sua fúria até arrebentar sem o menor aviso, o Eixo viria cobrar as humilhações, instaurando a Segunda Guerra Mundial.

Os pais de Victória e Isolda perderam mais entes queridos para as bombas V1 e V2, além daqueles que haviam ficado para trás, e caído nas garras do Holocausto. Sendo assim, simplesmente não conseguiram ficar alheios ao que acontecia em Mir. Já haviam passado por atrocidades demais para ver aquele paraíso a que finalmente havia chegado ser dilacerado. Não deixariam a morte de seu governante impune, e a caçada ao conhecimento sem reação. Como se não bastasse terem tomado o poder à força, Fausto e Hades empenharam-se em destruir o conhecimento que levasse a população a questioná-los, exterminando com igual impiedade aqueles que se colocavam em seu caminho. A perseguição às bruxas e feiticeiros foi implacável por um simples motivo: o conhecimento destes ultrapassava qualquer limite, abarcando segredos da natureza e do controle da magia, além de prestarem um juramento em favor da verdade e do bem; constituiam assim um perigo duplo, impensável. Apenas alguns poucos desertores, traidores da magia, foram poupados.

Victória fora arrancada de seus pensamentos pela pergunta daquele ser maldito:

– Então, trouxe o que combinamos?

– É claro que não. Quero ouvir sua proposta primeiro.

– Gostaria de matá-la apenas por sua petulância!

– Gostaria, mas não pode. Se me matar, jamais chegará ao livro. E você já não tem tanto poder quanto pensa, ou gosta de aparentar que tem. Estamos infiltrados onde menos imagina.

– Quero vê-la sorrindo dessa forma, petulante, quando eu estiver acabando com a vida de seus pais. Faço questão que assista.

– Quais são seus termos para soltar minha irmã?

– O Primeiro Livro.

– Sabe que não o tenho. Não está em meu poder.

– Pouco me importa o que terá de fazer para consegui-lo.  Quero-o em minhas mãos até o pôr do sol de sábado. Você tem três dias para trazê-lo a mim.

– Onde?

– Boa menina! Leon lhe avisará.

E, passando as mãos nos cabelos soltos de Victória, deu uma volta completa ao seu redor, antes de sair batendo fortemente a porta da biblioteca. A jovem fechou os olhos procurando controlar o asco, concentrando-se na própria respiração, evitando perder o controle das pernas e do corpo ao sentir o hálito repugnante de Hades tão perto. Continuou de olhos fechados, escutando os dois pares de pés maculando o silêncio ao pisar firmemente no mármore branco e preto, e apenas quando sentiu-se sozinha teve coragem de voltar a enxergar.

Então era isso. Teria de escolher entre tudo pelo qual os pais haviam lutado, e a vida da irmã. Mas a escolha não era assim tão simples. Milhares de vidas estavam em suas mãos, e estaria quebrando um juramento supremo ao entregar o Primeiro Livro. O livro em que estavam escritos todos os encantamentos, bons e maus, toda a magia registrada desde o início do mundo. Sabia onde estava escondido, assim como seus pais, e alguns daqueles que resistiram a Fausto, e a Hades. Daqueles que se mantiveram de pé, aguardando o momento do contra-golpe, a hora de derrubar o senhor dos infernos, e assim o fizeram. Quando a população se tornara um barril de pólvora esperando pelo estopim, o sinal fora dado e o alto chanceler se auto exilara. O comando da Nova República, que em breve voltaria a se tornar Mir, ficara nas mãos de um governo provisório.

No entanto, as coisas não saíram conforme o esperado. Hades se exilara até sentir que poderia criar um artifício para voltar. Sabia que os estragos, que a exaustão que provocara não seria remediada facilmente, e ficou à espreita, por perto, aguardando a insatisfação virar a seu favor. Quando o governo provisório continuou incapaz de produzir e importar alimentos suficientes e o racionamento permaneceu necessário; quando os empregos começaram a crescer, mas muitos continuaram desempregados; quando se voltou a se falar nos livros, mas ainda não se imprimia para que todos voltassem a ler, a pensar e a imaginar livremente: foi quando Hades retornou. Com muitos militares e civis a seu lado, entrou na capital com ar de injustiçado, arrependido, sustentando um suposto espírito de contrição. Jurou que havia errado por amor a seu país, e que trabalharia a favor dos novos governantes, até que a população o aceitasse em seu verdadeiro lar… Hades havia voltado dos mortos. A paz da pequena e paradisíaca ilha de Mir, que se encontrava em algum ponto do Oceano Atlântico, talvez perto dos Açores, talvez no Triângulo das Bermudas, continuava ameaçada.

Os pais e a resistência haviam permanecido em local sigiloso, pressentindo que o perigo ainda não passara. Sabiam que caminhar abertamente colocaria a vida da população em risco, assinaria a sentença de morte daqueles que assumiram o governo provisório, e que também trabalhavam pela restauração de um governo justo. Foi nesse contexto que Victória e Isolda resolveram que era hora de voltar. Criadas por uma família de humanos que nada tinha a ver com magia, mantiveram contato com seu mundo às escondidas. Com o pretexto de uma viagem para o Novo Mundo, disseram-lhe um dolorido adeus e partiram. Sentindo os corações apertados pela mentira e pela saudade, mas também pulsando com a esperança de encontrar os pais, aportaram em Nova República.

Sob falsos sobrenomes, demoraram meses para encontrar a quem procuravam. Esquivaram-se das perguntas que as entregassem a Hades, evitaram fazer amizades. Suspeitando de tudo e de todos, não descansaram até chegarem a Kachèt, o refúgio escondido nas montanhas. Ao passarem pelos enormes portões de madrepérola, capazes de ofuscar e destruir os inimigos, não foi preciso dizerem uma única palavra. Com idades separadas por menos de dois anos, as jovens eram o reflexo de sua mãe, Sofia. Ao mesmo tempo, nenhum dos combatentes lhes disse palavra alguma, fitando-as intensamente até que os pais fossem trazidos à sua presença, correndo. A mãe jogou-se nos braços das filhas e Henrique caiu de joelhos, sem acreditar que estivessem tão próximas. Era um sonho impossível que se realizava. Impossível, e arriscado.

Depois de muitos minutos de reencontro silencioso, foi ele quem falou:

– Como faremos para enviá-las de volta, em segredo?

– Não! – protestou Victória. – Viemos ajudá-los a lutar.

– Ficaremos com vocês, haja o que houver. – afirmou Isolda.

– De forma alguma. Por mais que eu tenha sonhado e desejado esse momento desde o dia em que colocamos vocês naquela carroça de girassóis, vocês correm perigo demais perto de nós.

– Os filhos de seus companheiros não estão aqui, lutando? Por que deveríamos ser poupadas enquanto eles arriscam suas vidas?

Os resistentes, que assistiam a tudo, ovacionaram Victória.

– Porque vocês correm mais perigo do que qualquer um. Serão o alvo mais visado pelos facínoras de Hades, e podem usá-las contra nós.

– Não somos mais importantes ou preciosas que os outros. – foi a vez de Isolda responder e ser aplaudida.

– Podem barganhar com a vida de qualquer um. Não vamos embora.

Henrique e Sofia não puderam argumentar depois que as filhas conquistaram seus companheiros daquela forma. Estariam sendo injustos se as mandassem de volta ao local seguro de onde nunca deveriam ter saído. Sua chegada era um caminho sem volta, e no íntimo Sofia agradecia pela coragem das filhas. Após dez anos sem vê-las, estava feliz demais para pensar no amanhã.

Victória tomou coragem para se levantar do chão da Biblioteca, mas não para voltar para casa. Lenta e temerosamente, dirigiu-se para a praia em que seus pais a levavam quando era apenas uma criança. Mal sabia como era capaz de se lembrar daquele lugar, mas foi o primeiro a que se dirigiu após desembarcar no porto de Nova República. Com uma boa porção intocada e selvagem, aquela praia sempre fora Mir, ainda era o paraíso que seus pais ajudaram a construir, e o lugar para onde ia quando precisava pensar. Chegando lá, descalçou os sapatos e dobrou desajeitadamente a bainha das calças, deixando os pés se enterrarem na areia morna que ia ficando gelada conforme se aproximava do mar. Ao sentir a primeira onda, tímida e fraca, bater em seus tornozelos, sentou-se à beira d’agua sem se importar que suas roupas começassem a ficar encharcadas. Mal havia encostado na areia lamacenta, quando as águas tomaram um volume inesperado, lavando-a até o pescoço como se quisessem purificá-la. Ou lhe enviar um aviso.

A lua já estava alta e seus lábios arroxeados quando resolveu parar de chorar. Já havia dividido seus anseios com o mar, agora era tempo de começar a agir. Levantou-se, deu as costas para água e começou a caminhar de volta, quando viu Leon parado à sua frente, como se estivesse a horas esperando por ela. Subitamente, estendeu a mão direita com a palma para baixo e interpôs uma linha de fogo entre os dois. Com um olhar desesperado, Leon atravessou a barreira, que se desfez ao toque de seus pés. Ele segurou a mão de Victória, ainda estendida diante do corpo. A expressão da jovem mudou do alarme para a repulsa enquanto ela arrancava sua mão da dele:

– Não me toque! Apenas me diga onde devo entregar o livro.

– Acha mesmo que vim aqui para isso?

– Fale-me o local, para acabarmos de uma vez com isso.

– Meu amor, eu vim até aqui para lhe explicar…

– Não me chame assim. Tudo que preciso de você é saber onde devo encontrar Hades daqui a três dias.

– Vai mesmo entregar o livro?

– Isso não é da sua conta. Não mais.

– Você não entende? Por que não me deixa explicar?

– Não pode me poupar de suas mentiras? Será que não mereço ao menos isso?

– Você acreditou em mim quando lhe pedi para fingir que não me conhecia. Eu disse que sempre trabalhei para eles, mas não houve tempo de dizer que…

– Chega! Hades lhe mandou até aqui para me torturar? Eu vi a forma como ele confia em você! Como pode fazer isso com meu pai? Com seus amigos? Quantos feiticeiros mandou para a fogueira? – Victória gritava, com lágrimas nos olhos.

– Fale baixo! Não tenho certeza de que não estamos sendo vigiados. Por favor, espere aqui por mim. Voltarei dentro de uma hora.

E vendo os olhos retorcidos e agoniados de Victória, conteve o ímpeto de abraçá-la para protegê-la. Ao invés disso, depositou seu sobretudo sobre os ombros dela, para que tentasse se aquecer. Sem mover um único músculo, a jovem bruxa viu o homem que amava, e que a traíra sordidamente, caminhar na areia e desaparecer. Lutou consigo mesma, dividida entre a decisão de esperar, ou desaparecer. Lembrou-se do que aconteceu pouco após o reencontro com os pais; ela e a irmã foram apresentadas aos demais membros da resistência, um a um. Alguns dias depois, Leon chegara a Kachèt. Cansado, abatido, mas satisfeito por ter cumprido alguma missão que lhe fora incumbida por Henrique. Victória nunca soube o que havia sido, mas ficou hipnotizada por seus olhos. E Isolda também.

Rapidamente, uma amizade se formou entre os três, mas forte que qualquer outra nascida entre os membros da resistência. Mas Leon também ficara à mercê de Victória, e um romance se iniciou, secretamente. Por algum tempo, apenas Isolda soube da verdade, e nunca contara sobre seus sentimentos à irmã. Guardara seu amor e seu rancor para si mesma, e apesar de lutar contra ele, este último passou a fermentar como um veneno dentro dela. Incitava Victória a tentar descobrir a natureza das missões secretas de Leon, disseminando uma desconfiança que nunca frutificara. Até que um dia, Isolda desapareceu.

O desespero pelo sumiço da irmã corroeu Victória, que passou a se empenhar para descobrir o que havia acontecido. Tinha poucos momentos com os pais e com Leon, procurando freneticamente qualquer pista sobre Isolda. E durante essas buscas descobriu o paradeiro do Primeiro Livro, escondido em uma caverna sob o mar. Relutou em contar aos pais, mas decidiu fazê-lo, antes que alguém o descobrisse. Queria movê-lo para dentro dos domínios de Kachèt, mas não sabia se era o certo, ou como fazê-lo sozinha. Henrique e Sofia lhe pediram que não contassem a ninguém, nem mesmo a Leon, e foram até a caverna descobrir que tipo de proteção o guardava. O local estava resguardado por encantamentos poderosos que nem mesmo os feiticeiros de Hades poderiam vencer, muito menos o próprio, sendo um humano sem poderes. Em meio a essas lembranças, recostada em uma grande pedra escondida pela vegetação, Victória, sem querer, adormeceu.

Ao acordar se viu em um lugar familiar, e seu sangue gelou. Estava na casa de Leon, fora do refúgio da resistência. Não o encontrou em lugar algum, e se arrumou para sair, esperando que conseguisse o fazer na surdina. Ao chegar perto da porta, pode ver pela minúscula janela de vidro dois capangas de Hades que ela já tivera o desprazer de encontrar. Em pânico, afastou-se devagar de onde estava, mas esbarrou em alguém, que colocara a mão sobre sua boca, abafando o grito que deixara escapar.

– Por favor, fique calma. Não grite, só iria chamar a atenção dos brutamontes que guardam minha entrada. Vou soltá-la agora, se prometer me escutar. Posso?

Victória assentiu, sem dizer uma palavra, esperando pelo que Leon teria a dizer.

– Sente-se aqui e coma alguma coisa. Você vai passar mal, desse jeito. – ele respirou fundo. – O que tentei lhe dizer, foi que trabalho para os Nequitia desde que seu pai me ordenou que o fizesse. Na noite em que nos conhecemos eu acabara de voltar de minha prova de lealdade, de minha cerimônia de iniciação e aceitação, por assim dizer. Tenho espionado os passos deles, tentando sabotar os planos de retomar o poder, e qualquer outra atrocidade.

– Por que deveria acreditar que não é exatamente ao contrário? Poderia estar enganando a resistência.

– Primeiro, ninguém conseguiria enganar um grupo tão poderoso de feiticeiros.

– Você supostamente engana os traidores que estão com Hades.

– É diferente. Eles estão corrompidos, cercados por gente má. Não são mais capazes de julgar o caráter de alguém. E depois…

– O que mais?

Leon ajoelhou-se à frente de Victória, pegando suas mãos e beijando-as.

– Olhe nos meus olhos. Acha mesmo que eu conseguiria mentir para você?

Os dois se entreolharam, e ela perguntou:

– Faz ideia de como isso tudo é difícil para mim? Como se eu já não tivesse uma decisão atormentante a tomar…

– Vou lhe ajudar com isso. Não fará nada sozinha, eu prometo. Por favor, diga que acredita em mim, em tudo que lhe disse. Quando fui à praia hoje, achei que tivesse ido embora. Faz ideia do perigo que correu ao dormir daquele jeito?

– Você demorou muito mais de uma hora…

– E mesmo assim, você esperou por mim.

– Não sei mais o que estou fazendo.

– É claro que sabe. Você é capaz de realizar o que quiser.

– Pare com isso! – disse Victória, sorrindo, e empurrando Leon para trás. Ele a segurou e a puxou para junto de si, dando-lhe um beijo apaixonado e demorado. E aliviado, agora que não havia mais mentiras entre os dois. Ou quase.

Quando ela interrompeu o beijo, ele passou a mão direita suavemente em seu rosto, e ambos abriram um sorriso incontrolavelmente largo.

– Então, sabe onde está o livro?

– Não posso lhe dizer isso.

– Pensei que acreditasse em mim. Quero ajudar, preciso proteger você.

– Acredito, mas não posso. Prometi a meus pais. E você estaria correndo um risco ainda maior.

– Pode me dizer ao menos o que pretende fazer para salvar Isolda?

– Você não sabe onde ela está?

– Não. Já a teria resgatado, se soubesse. Hades a escondeu de todos. Não podemos sequer matá-lo antes de descobrir o local do cárcere.

– Preciso pensar em um jeito de enganá-lo. Ele não tem poderes para sentir se lhe entregarmos um livro falso!

– Hades pedirá a um feiticeiro que verifique, antes de libertar Isolda. Eu poderia mentir para ele, mas não há garantias de que vá pedir a mim. Seria muito arriscado.

– Você poderia conseguir que ele fosse ao meu encontro sozinho?

– Posso tentar. Como é o local em que está o livro?

– Leon, não posso lhe contar.

– Sei disso. Quero saber se há proteções mágicas à volta dele.

– Muitas. Do tipo que ele só poderia atravessar com a ajuda de um feiticeiro.

– Então darei um jeito de levá-lo até lá sozinho. Custe o que custar.

– Acha que…

– Fale.

– Acha que Isolda ainda está viva? Não faço ideia de como ela a sequestrou dentro de Kachèt. E nenhuma de nós costumava sair. Ao menos, nunca sozinhas.

Leon respondeu, abraçando-a:

– Tenho certeza de que ela está viva e bem. Hades é repugnante, covarde, mas não é estúpido. Sabe que se você tiver o livro, jamais o entregaria sem ver sua irmã.

– Espero que sim.

– Agora preciso tirá-la daqui e levá-la a seus pais, em segurança. Vamos.

– Como? A casa está cercada!

– Sequer vão perceber que eu deixei o lugar.

Dizendo isso, Leon abraçou Victória e os dois transformaram-se em pássaros que pousaram aos pés da entrada na montanha. Somente quando estavam a salvo, depois das portas de madrepérola, retornaram à forma humana. Henrique, Sofia e um pequeno grupo foi informado de que alguns segredos haviam sido revelados, e passaram a trabalhar no plano para resgatar Isolda. Não havia muito tempo, e todos as possibilidades de erro precisavam ser consideradas. Victória jamais ficaria sozinha com Hades, uma vez que Leon estaria sempre com eles. Na teoria, nada poderia dar errado. Considerando o inimigo com quem estavam lidando, havia poucas chances de tudo realmente dar certo.

Na manhã de sábado, algo inesperado aconteceu. Enquanto todos estavam ocupados preparando suas posições para o ataque, um bilhete foi entregue a Victória. Tratava-se de um blefe, mas não havia ninguém por perto para dissuadi-la de cometer a loucura que aquelas linhas incitaram:

 

“Victória,

Assim como vocês, também tenho infiltrados onde menos imagina. Sei do que planejam para o encontro de hoje, por isso alterei meus termos. Venha imediatamente à Biblioteca Principal, e venha sozinha, ou chegará apenas para ver o cadáver de sua irmã.

Hades.”

 

Henrique e Sofia estavam preparando a todos para a ação ao pôr do sol. Leon estava esperando o comando de Hades, para que esse não desconfiasse de nada. Mas o facínora achou que a ocasião pedia pela companhia da única pessoa em que podia confiar cegamente: ele mesmo. Por isso, nenhum dos seus feiticeiros ou capangas fora avisado do que planejara. Quem precisasse ser envolvido, o seria apenas no momento em que fosse necessário. Hades estava pessoalmente esperando Victória na mesa principal, e a levou até um dos corredores para ver Isolda amarrada, amordaçada e exaurida. Diante dessa imagem, não foi preciso que ele dissesse uma só palavra.

– Está bem. Vamos agora até o livro, somente eu e você. E Isolda fica livre. Amarre-me e leve-me no lugar dela.

– Não posso recusar tal oferta. Vou usar em você as mesmas amarras que agora prendem sua irmã, para que tenha certeza que sou um homem de palavra.

Os três deixaram a Biblioteca Principal juntos. Victória imobilizada pelas cordas e pelo pavor; Hades conduzindo-a satisfeito pelo braço; e Isolda um pouco atrás, enfraquecida, sem desviar os olhos da irmã. Pronta para fugir assim que ela lhe desse um sinal.

Pouco depois do meio dia, enquanto Victória era amarrada, Leon sentiu algo estranho. Verificou que os demais feiticeiros estavam aguardando em seus postos, ninguém havia sido convocado para testar o livro. Hades não estava em lugar algum. Definitivamente, algo estava errado. Foi à Biblioteca, onde não havia ninguém, e encontrou o lenço que amordaçara Isolda, mas não descobriu o propósito da peça. Desconfiado, vasculhou aquele corredor, e seu coração disparou quando viu, embaixo da primeira estante, o bilhete que Victória recebera horas antes.Sem saber para onde poderiam ter ido, Leon foi o mais rápido que pôde a Kachèt para avisar à resistência e dar início imediatamente à ação.

Porém, não haveria tempo para que todos chegassem. Leon foi primeiro, sem saber como explicaria sua presença. Precisava entrar na caverna, não poderia deixar Victória enfrentar Hades sozinha. Sabia onde e como entrar, e isso era o que importava. Os combatentes chegariam logo depois para ajudar. E foi pensando no que diria a Hades que chegou a uma praia ao sul da ilha, bastante alterada pelo homem, exceto por uma grande pedra alguns metros após a linha em que as ondas quebravam na areia. De pé, entre Leon e o mar, estavam dez capangas de Hades, com ordens para que ninguém se aproximasse. O feiticeiro então os encantou para que dormissem, e seguiu até a grande pedra. Diante dela, pronunciou o feitiço “Aperi Mihi, pro Luce”, e uma estreita fenda que deixava escapar uma luz verde, uma espécie de rachadura se fez no pedregulho. Sem pensar nos obstáculos à frente, Leon entrou.

Enquanto este lutava para chegar ao centro da caverna, uma armadilha cruel esperava por Victória. Acreditando que ao menos conseguiria impedir Hades de chegar ao livro, não esperava que ele conseguisse uma feiticeira ainda ligada a seus poderes do bem para lhe ajudar. Minutos após ter passado com Hades pela entrada na pedra, e de ter vencido as provas para se aproximar do Primeiro Livro, conjurando feitiços e passando por provas de caráter e honestidade,  ela quase perdeu o controle da respiração ao ver Isolda descendo a escadaria coberta de estalactites e limo.

– O que está fazendo aqui? Não devia ter vindo me ajudar! Salve-se! Isolda, salve-se!

O olhar de Isolda para a irmã poderia ter iniciado uma nova era do gelo. Glacial, denotava desprezo, e ódio.

– Quem disse que vim até aqui para ajudá-la?

– O quê? Não estou… Isolda, vá embora enquanto pode!

– Você deveria ter feito isso, irmãzinha. Mas, enfim, fará algo em meu benefício. Entregue o livro a Hades, e morra, sua egoísta. E eu passarei o resto de nossa eternidade consolando Leon, bem longe daqui…

– Isolda! Ele se apoderou de você! Deve estar sob algum encantamento! Não é possível… E nossos pais?

– Nos abandonaram para fazer outras coisas, não foi? Por que eu deveria me importar com eles, agora?

– Como pode pensar isso? Não viu o esforço deles?

– Pensei muito bem durante todo o tempo que a vi tomar Leon de mim. Depois que resolvi deixar aquele refúgio e refazer minha vida longe dessa insanidade que é a resistência, Hades me encontrou. Nos tornamos… sócios.

– Sua… louca! Pense bem no que está fazendo!

– Não ouse me chamar de louca. Fiz minhas escolhas. Lamento se não lhe agradam.

– O que você fez com minha irmã, Hades?!

– Ele me fez um grande favor!

– Garotas, não briguem. Victória, pare de aborrecer sua irmã e a mim, e pegue logo o livro para me entregar. E como se comportou tão bem, talvez nem mate você.

– Hades, nem pense em descumprir sua parte em nosso acordo.

– Está bem, está bem, Isolda. Eu matarei Victória. Mas primeiro preciso que ela me entregue o códice, e que você me diga se é realmente o Primeiro Livro.

– Solte-me dessas cordas.

– Claro. Mas você só precisa de suas mãos livres. Suas pernas ficarão amarradas, facilitando o processo para mim.

Nesse exato instante, Leon entrou no salão de pedras em que os três se encontravam. Hades foi surpreendido por essa presença, e prendeu a boca de Victória, quase a sufocando enquanto ela se debatia e tentava se desvencilhar dele:

– O que está fazendo aqui?

– Eu os segui até a Biblioteca Principal, e depois até aqui. Como demoraram a sair, avisei aos guardas que estava preocupado, e vim ver o que estava acontecendo.

– Então leve Isolda daqui. Não preciso mais dela, tenho Victória. – ordenou Hades.

– Por que Isolda não sobe sozinha, e eu fico para verificar a autenticidade do livro. Deixe-a ir embora.

– Mas ela sempre pôde ir embora. Nosso acordo é a única coisa que a prende a mim.

– Acordo?

– Não preciso de ninguém para verificar o livro, tenho certeza que é o verdadeiro. Victória jamais brincaria com a vida da irmã. Uma pena que o contrário não possa ser dito.

– O que está dizendo? – e virando-se para Isolda: – Vá embora, aproveite!

– Francamente, não sei o que você viu nele. Um grande feiticeiro, claro, mas um pouco obtuso.

Isolda contornou Leon, e depois fez o mesmo com Hades, que ainda segurava firmemente Victória, calando-a.

– Isso é um problema meu, Hades. Não há quem possa impedi-lo de pegar o livro, agora. Por que não acaba logo com isso?

– Isolda, não! – Leon gritou, desesperado, entregando sua verdadeira lealdade.

– Por que não? Pouco me importa quem governará essa ilha estúpida. Tudo o que pretendo é fugir daqui com você.

– Comigo?

– Hades tem razão, você é um tanto obtuso… Nunca percebeu o quanto eu o amo? E o quanto eu detesto aquela resistência? Tentei com todas as minhas forças me importar, mas só havia espaço para Victória. Meus pais e você só tinham olhos para ela. Bem… Em breve isso estará resolvido.

Victória tentou protestar contra as palavras da irmã, mas foi calada por Hades com uma força selvagem.

– Isolda, acho que os últimos fatos levam a uma mudança nos planos. Não posso deixar um traidor impune.

– Por que não? Você é um traidor e está impune. Vou levá-lo para bem longe daqui. Diga a todos que o matou.

– Sua sorte é que finalmente vou colocar as mãos no livro, e isso me deixou com excelente humor. Está certo. Mas ande logo Victória, quero o Primeiro Livro, agora. Ou não serei tão benevolente com sua irmã e seu namorado.

Dizendo isso, soltou a jovem e a colocou diante do pedestal em que se encontrava o livro. Levantou os braços com as mãos abertas para frente, tocando uma barreira translúcida e praticamente invisível. Um vento forte se desprendeu do encantamento, envolvendo-a como um redemoinho. Foi então que ela ouviu as vozes de muitos feiticeiros que haviam dado suas vidas para proteger aquela fonte tão perigosa de conhecimento:

– Sabemos que não pretende nos entregar a Hades, mas estaria disposta a conceder sua vida para destruí-lo? – disse uma voz masculina, grave e cavernosa.

– Sim. Isso é possível?

– Você está cercada pelo último encantamento, o fogo fátuo capaz de destruir tudo. Qualquer mal. Mas terá que trazer Hades consigo, não será possível alcançá-lo se não o trouxer para dentro dele. – respondeu uma melodiosa voz feminina.

– Não há como avisar Leon, ou Isolda. Podem poupá-los?

– Deseja mesmo salvar sua irmã, depois de tudo? – perguntou a mulher, e Victória pode ouvir centenas de vozes murmurando algo ao fundo.

– Sim. Não posso sacrificá-la. E quanto ao livro, será destruído?

– O livro está a salvo, e assim permanecerá se Hades for destruído. Por muito tempo. Não pode ser retirado daqui, mas o fogo não o atingirá.

– O que devo fazer?

– Diga a Hades que o último feitiço de proteção foi quebrado, e que ele poderá chegar perto do pedestal para retirar o livro. Não se preocupe com o resto. Agora vá, traga-o aqui.

O vento se dissipou, e as vestes de Victória, açuladas pelo redemoinho, cairam-lhe pesadas sobre o chão. Ela se aproximou de Hades e lhe disse o que os espectros do encantamento haviam ordenado. Isolda assistia a tudo com olhos cobiçosos, mas Leon protestou:

– Victória, não!

– Fique onde está. E você também, Isolda. Se chegarem perto de nós, seremos todos destruídos. Preciso levar Hades para pegar o livro. – e lançou a Leon um olhar suplicante enquanto caminhava.

Não houve tempo para que Leon a alcançasse, ou para que Isolda o impedisse. No momento em que Hades, de braços dados com Victória, colocou a mão direita sobre o livro, um fogo de cor púrpura os envolveu, e preencheu toda a sala. O feiticeiro pôde apenas ouvir os gritos lancinantes dos três, especialmente de Hades, que parecia tentar escapar das criaturas que habitavam o fogo. Três enormes cães de guarda, troncudos e maçiços, desdendentes dos molossos romanos abocanharam as roupas de Hades e o arrastaram para o centro do incêndio. Os Cães da Condenação vieram coletar pessoalmente um prisioneiro aguardado há muito tempo.

Leon foi jogado contra a parede de pedra, e caiu no chão produzindo um barulho surdo antes de perder os sentidos. Foi acordado por uma senhora feita pelo mesmo fogo púrpura que havia expurgado o local, e que lhe oferecia as mãos para ajudá-lo a levantar. Sem nada dizer, apontou com a mão esquerda para os pés do pedestal, indicando que ele fosse até lá. Então Leon viu Victória, e olhou para a mulher, sem compreender ou acreditar no que havia acontecido. Mas isso não importava. Correu até a jovem, estirada ao chão, com as roupas chamuscadas nos locais em que Hades a agarrara, tentando se salvar, ou talvez levá-la consigo. Ela respirava debilmente, mas estava viva, e aparentemente, ilesa.

– Meu amor, acorde.

Ela demorou a atender seu chamado e a abrir os olhos. O fez lentamente, com uma expressão indecifrável no rosto.

– Você está vivo? E eu?

– Também está. Achei que o fogo tivesse… Esqueça. Acabou.  – respondeu, abraçando-a apertado, sem tirar os olhos dos dela. Mas Victória olhou para os lados, alarmada.

– E Isolda? Implorei que fosse poupada também. Onde ela está?

Mas essa resposta veio da mulher de fogo, cujas saias bruxuleavam como uma fogueira.

– Não foi possível salvá-la. Seu coração estava comprometido. Mas tenha certeza de que seu pedido e seu sacrifício a pouparam do mesmo destino de Hades. Ela não sofrerá como ele. Mas venham, sigam-me. Precisamos ensiná-los enquanto há tempo.

– Ensinar-nos? – perguntou Victória.

– Sim. O conhecimento do livro está quase extinto entre os bruxos. E vocês provaram que merecem adquiri-lo, para que possam disseminá-lo. Há quase um milênio isso não acontece, devemos aproveitar que o fogo cessou. Venham, coloquem suas mãos sobre  o Primeiro Livro e sintam os encantamentos passarem a fazer parte de vocês.

Victória levantou-se com a ajuda de Leon e apoiou-se nele, que a manteve segura com o braço direito em volta de sua cintura. Dessa forma, ele colocou sua mão livre, a esquerda, sobre o livro, e ela fez o mesmo com a mão direita. O redemoinho que ela já havia sentido, juntamente com o coro de centenas, talvez de milhares de vozes, os envolveu. Era assim que estavam quando Sofia, Henrique e outros dez feiticeiros chegaram à câmara do livro. A mulher de fogo ordenou que aguardassem sem se aproximar, até que o aprendizado estivesse terminado. Quando subitamente o vento parou, ela virou-se para eles, avisando que poderiam deixar aquela sala, e que Victória deveria repousar.

Quando se voltaram para a escadaria de pedra, viram os rostos que os olhavam divididos entre a apreensão e a curiosidade. Ela abraçou os pais, e ele pediu que deixassem o local. Explicariam tudo o que ocorrera assim que chegassem a Kachèt. Leon segurou Victória nos braços e garantiu que algo era certo: Hades havia sido derrotado. O que se seguiu foi um esclarecimento difícil, doloroso, porém era preciso contar a verdade sobre Isolda. Muito tempo se passou até que essa ferida começasse a cicatrizar.

O amor de Leon e Victória jamais se dissiparia, e ficariam unidos enquanto suas longas vidas estivessem acesas. O espectros do fogo fátuo lhe garantiram uma vida próspera, e longa. Não sabiam ainda, mas morreriam centenas de anos depois, juntos e placidamente. Sua missão era louvável e extensa, havia muito a reconstruir, muito a ensinar. Ajudariam a transformar Nova República no que paraíso que um dia fora. Não seriam governantes, essa escolha ficaria a cargo do povo, no tempo devido. Tudo que importava é que estavam juntos, e que Mir estava em paz.

 
 

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