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O que é um blog?

24 fev

Ouvi, outro dia, de um amigo, jornalista da área de ciência, um comentário sincero que não esqueci: “O seu blog não é um blog”. Ele me alfinetou, em seguida, com uma pergunta: “Leio-o sempre, mas quando seu blog vai começar?” Poupo seu nome porque
continuamos a ser amigos, grandes amigos, apesar das distâncias que nos separam. Ou, talvez, o mais provável, por causa elas.

Meu amigo tem uma mente férrea, dogmática, “clara”. Acredita que cada coisa tem sempre um mesmo nome e que cada idéia tem uma procedência, um status e um valor imutáveis. É, sem dúvida, um homem sério, digno de absoluta confiança _ por isso o estimo tanto. Embora não me surpreenda seu comentário, descubro que ele me é útil para pensar o que aqui tento fazer.

Argumenta meu amigo: meu blog não contém informações _ não é jornalístico. Traz textos muito grandes _ não é prático. Trata de assuntos íntimos e vagos _ não é objetivo. Não tem, nem mesmo, links e fotografias! Em resumo, não é um blog, ele me diz, sem esconder sua decepção. Para resumir o que pensa, com o coração sempre aberto, me diz mais: “Seu blog, se é que é um blog, só tem pensamentos. E são pensamentos fluidos, inconclusivos, fragmentados, que não levam a lugar algum”.

Meu amigo é um homem de objetivos. Só entra em um shopping se sabe exatamente o que deseja comprar. Só faz uma viagem de turismo depois de decorar mapas e guias. Só cozinha com um livro de receitas ao lado. Como poderia suportar meu blog _ este blog? E, no entanto, o lê, ele admite. Não gosta, reclama, discorda, mas lê. Mas que bom!

Tentei explicar a meu amigo que, há muito tempo, não acredito em gêneros. A literatura me ensinou isso _ e essa descoberta me leva muito além de seus limites. Eu a adoto, por exemplo, na internet. O que é exatamente um blog? Meu amigo pensa em
“conteúdos”, enquanto eu penso tão somente em um veículo. Nos blogs, blogueiros veiculam o que bem entendem. Não há uma receita _ o blog não é um empadão. Não há uma fórmula _ ele não é um medicamento. Não há um estilo _ um blog não tem a obrigação de “estar na moda”. Tudo isso aprendi lendo os grandes escritores e aplico,
serenamente, aqui.

Sim: meu blog é cheio de pensamentos, dispersos, flutuantes, inconclusivos, meu amigo tem razão. E é exatamente assim que eu o vejo: como um diário de idéias. Leio alguma coisa, alguém me diz alguma coisa, vejo alguma coisa: então escrevo. Eu o escrevo por impulsos. Mesmo sua regularidade é irregular. Ultimamente, tendo cumprir a
meta de postar uma mensagem por semana. Nem sempre consigo, e não me sinto
obrigado a fazer isso. Um blog não é uma prestação de contas.

Por que será que, mesmo discordando, e se incomodando tanto, meu amigo continua a ler meu (este) blog? Essa é a pergunta que me fica. Não vou me arriscar a dar uma só resposta. Não, não eu. E não aqui. Como dizia Hélio Pellegrino, quando o metiam em polêmicas alheias: “Comigo não, violão”. Repito a resposta de Hélio _ de quem tantas vezes discordei. E a resposta é: não tenho uma resposta.

Outro dia, uma amiga me disse que meu blog é meio “oriental”. Fiquei pensando nas idéias que minha amiga tem a respeito do Oriente. Talvez o predomínio das perguntas sobre as respostas. Talvez algo “zen” _ no sentido mais banal. Talvez meu blog seja “oriental” porque não seja “prático”. Porque seja inconstante, porque não tenha objetivos fixos, porque seja, até, indigno de confiança _ isso para quem confunde confiança com
certeza. Talvez. Prefiro ficar com o talvez e seguir meu caminho.

Do blog de José Castello – A literatura na Poltrona – O Globo

 
 

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