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Caligrafia do Afeto

06 mar

Dedicatórias emprestam timbre afetivo às palavras                                                                                        e nos transportam ao universo particular de grandes criadores.

TEXTO Roberta Dezan

Ao pensar em dedicatórias, a memória traz à tona a expressão poética que evoca pessoas e situações corriqueiras e agrega valores especiais a objetos. Construções discursivas lavradas pela criatividade e pelo sentimento dirigidas a parentes, a amigos, próximos ou distantes, e até desconhecidos, por afinidade ou gentileza, potencializam artisticamente a comunicação cotidiana.

As dedicatórias impressas tornaram-se comuns no Brasil oitocentista por motivos distintos. Numa época em que ser escritor era um desafio, o oferecimento público de lealdade e submissão por meio dos livros abria a possibilidade de inclusão na sociedade da corte. “A abertura da Impressão Régia contribuiu para o despertar da vida cultural e, nesse ambiente, a necessidade de conquistar as boas graças do soberano para obter prestígio fez com que as primeiras publicações já contassem com dedicatórias”, revela Ana Carolina Delmas, mestra em história política pela Uerj.

O poeta Carlos Drummond de Andrade tinha o hábito de anotar as dedicatórias antes de enviá-las. Os três cadernos conservados pela Fundação Casa de Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro, deram origem ao livro Versos de Circunstância (Instituto Moreira Salles, 2011). O título, escolhido pelo próprio autor, pode ser encarado como um gênero poético, “um reservatório de textos que reverenciam a amizade e que exploram as possibilidades semânticas e estilísticas das palavras, a serviço de manifestações de afeto, de agradecimento ou admiração”, analisa o professor de literatura brasileira Marcos Antonio de Moraes na apresentação do livro.

A publicação traz todos os poemas em fac-símile, onde é possível acompanhar textos movidos pelo momento. Repletos de intimidade, jogos onomásticos e experimentações sonoras, os versos são testemunhos de relações. No primeiro caderno, Drummond anotou dedicatórias escritas em exemplares de Claro Enigma (1951), como a destinada à escritora Rachel de Queiroz: “ ’Cultiva o teu jardim’. Rachel o sabe,/mas, na Ilha Feliz, ela não deixa/de guardar em ternura quanto cabe/no coração, e ouvir a humana queixa”.

Outro escritor dedicado ao gênero foi Manuel Bandeira, autor de Mafuá do Malungo – Jogos Onomásticos e Outros Versos de Circunstância (O Livro Inconsútil, 1948). Em suas memórias, no texto “Itinerário de Pasárgada” (In: Poesia Completa e Prosa, 1967), Bandeira diz: “Fiz algumas tentativas de escrever poesia sem apoio nas circunstâncias. Todas malogradas. Sou poeta de circunstância e desabafos, pensei comigo”.

O artista, escritor e crítico Sérgio Milliet ao opinar sobre Mafuá do Malungo, como está registrado em Diário Crítico de Sérgio Milliet (1981), disse que os “versos de circunstância” permitem ao leitor se “familiarizar com os grandes, fazendo-nos entrar um pouco na sua vida de homens como os demais”; convencem-nos de que “o grande poeta Manuel Bandeira pode ser malungo (africanismo que significa ‘companheiro, camarada’) também, ama, ri, chora de verdade, tem amigos que a gente conhece, participa como nós mesmos das alegrias e tristezas dos companheiros, admira certos políticos, gosta de certas comidas, vota nas eleições”.

Poética do encontro

A exposição Percursos e Afetos – Fotografias, 1928/2011, do pesquisador, crítico e curador Rubens Fernandes Junior – em cartaz até 15 de janeiro na Pinacoteca do Estado de São Paulo – traz um conjunto de fotografias “construído a partir da profunda relação estabelecida entre os artistas e o pesquisador”, diz o curador de fotografia do museu, Diógenes Moura. São expostas 80 imagens recebidas de amigos fotógrafos – como Mario Cravo Neto e José Oiticica Filho – como presente ou moeda de troca por um trabalho. “É comum eu receber imagens pelos textos e críticas que faço sobre os trabalhos de fotógrafos e é gratificante quando chegam junto a palavras de agradecimento, afeto e amizade”, conta Fernandes.

Apesar de mais de 40% das imagens terem dedicatórias no verso e de o crítico considerá-las tão ou mais importantes que as próprias fotografias, não houve espaço para mostrá-las; apenas alguns textos e cartas foram dispostos em vitrines. “O ideal seria expô-las em uma parede de espelhos, mas o espaço era pouco para tanta história”, explica. Na fotografia é comum que os escritos sirvam também para situar o registro no tempo e no espaço, como uma extensão da memória. “Essas lembranças servem como referência de percursos e são fundamentais para o trabalho de pesquisadores. Com elas é possível aproximar os artistas, as suas relações e seus universos criativos”, acredita Fernandes.

Fonte: Itaú Cultural – Revista Continuum – Dezembro 2011 – edição 34

 

 
 

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