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Por que estudar universos de fantasia?

10 abr

Talvez as melhores contribuições da faculdade de História foram os amigos que fiz. Ainda que não nos encontremos com a frequência que gostaríamos, sempre damos um jeito de manter a comunicação. E agora fazemos isso também através de nossos blogs.

O mais recente post de meu amigo-wikipédia, com quem nunca se deve jogar Perfil (se estiver no time adversário), é fantástico. Com duplo sentido.

Foi ele quem me apresentou “O anel do Nibelungo” quando eu ainda mal começava a gostar de Tolkien. E ele é capaz de dizer tudo que uma historiadora, bibliófila e fã de mundos fantásticos como eu, gostaria. E mostrar que levantar os olhos dos livros acadêmicos e expandir os horizontes dispensa vergonhas, e tem muito valor.

Por isso, foi impossível não compartilhar suas ideias no Lanchinho da Meia-Noite. Peço desculpas pela reblogagem sem ter pedido autorização, e agradeço por levar o gosto pela fantasia a esse patamar.

Sem mais delongas, diretamente do Oficina de Clio:

“Por que estudar universos de fantasia? – Uma reflexão “filo-estruturalista”

“Há muito tempo me interesso, enquanto historiador, pelo estudo de universos de fantasia. De fato, sei mais sobre a História da Terra Média e da República Galática do que sobre História Contemporânea. A Bordúria e a Sildávia também não me são estranhas, assim como o Nuevo Rico e San Teodoros de Tintin, sem falar de Rawajpoutalah. Ultimamente ando fascinado pelo legendarium de Krabat, sobre que pretendo escrever um post em breve. Além disso, minha esposa e eu temos mergulhado profundamente no universo de Harry Potter. Levo esse aprendizado – quase – a sério, o que me consome muitas horas. Particularmente os estudos sobre o mundo de Star Wars já viraram uma mania bastante cara. Todo esse investimento financeiro, emocional e, principalmente, intelectual vale a pena, enquanto aprendizado filosófico?

Devo confessar que minha resposta é positiva. O cotejo entre esses mundos fantásticos e realidades históricas tem sido muito esclarecedor em inúmeros momentos. Frequentemente a comparação entre situações ficcionais e reais tem me ajudado a compreender melhor as últimas, abrindo caminho para perspectivas novas. Por exemplo, estou atualmente lendo um livro sobre Star Wars que me possibilitou vários insights interessantes a respeito da transição da República ao Principado em Roma, especialmente o papel da Guerra das Gálias nesse processo. Outro bom exemplo foi o jogo Aragorn`s Quest, sobre o qual escrevi um post recentemente.

Em alguns casos, os universos ficcionais nos convidam a refletir sobre questões mais universais. A recente releitura de Krabat, de Otfried Preussler, me facultou importantes questionamentos a respeito das relações do ser humano com o poder e suas inúmeras contradições e ambiguidades. Da mesma forma, as complexas relações entre Voldemort e seus Comensais da Morte tem motivado curiosas reflexões acerca das intrincadas sobreposições de medo, amor, ambição e convicção que podem levar alguém a seguir um líder carismático.

Curiosamente, essas observações vão ao encontro de minhas recentes leituras de Lévi-Strauss, particularmente de Tristes tropiques e Histoire de lynx. Me despertaram a atenção as discretas observações do autor a respeito das possibilidades estruturais da língua e da mitologia em expressar virtualmente todas as combinações sociais imagináveis, que já existiram, existem ou existirão na vida real, mas também aquela dos mundos míticos e imaginários. Me deparei com essa afirmação primeiramente emHistoire de lynx, num magnífico capítulo onde analisa os escritos de Montaigne.

No entanto, ainda mais interessante é certa passagem de Tristes tropiques, onde o antropólogo se apropria do modelo da sociedade das cartas esboçado por Lewis Carroll, em Alice no país das maravilhas, aplicando-o como modelo de compreensão a respeito dos Kadiwéu do Planalto Central. A inusitada comparação rende belíssimas páginas no capítulo sobre essa nação indígena.

Guardadas sempre as devidas proporções e a sobriedade de comparação, o conhecimento dos universos de fantasia pode se revelar muito mais esclarecedor do que parece à primeira vista, levando a inesperadas perspectivas sobre o estudo das culturas e sociedades humanas.

Por Luiz Fabiano Tavares de Freitas”

 

Acompanhem esse blog!

 
 

Uma resposta para “Por que estudar universos de fantasia?

  1. Tavares

    11/04/2012 at 10:32

    Obrigado pela divulgação, pelos elogios, mas principalmente pela amizade! Adoramos você e Daniel! Grande abraço!

     

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